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DAR VALOR AO QUE TEMOS

Quinta-feira, 04.02.10

 

Um dia já há alguns anos, sai do meu trabalho muito cansado e com um desanimo enorme.

Era um daqueles dias em que tudo parece correr mal.

Pensava chateado que o meu filho estava com a quarta ou quinta virose do ano, que a minha então namorada parecia ter TPM eterna e tinha um monte de clientes que acumulavam contas e não me pagavam.

Como num teste à minha paciência , o carro avariou metros depois, quando tentei ligar para a firma e pedir o motorista , este parecia ter desligado o telemóvel e resolvi ir a pé até um ponto de táxis.

Ia remoendo um monte de palavrões quando a chuva resolveu abater-se em bátegas sucessivas , e mal começou a chover , ocorreu uma avaria na electricidade e ficamos às escuras em plena rua alagada.

Aumentei o montinho de palavrões que me ocorriam , agora estava encharcado, cheio de frio , longe ainda dos táxis e no escuro total.

Lá encontrei uma espécie de abrigo , uma reentrância na parede lateral de um prédio, um abrigo mais ou menos enxuto e lá parei rezando para que a chuva parasse.

De repente dei-me conta de que não estava só.

Ao meu lado , algumas pessoas falavam e imaginei que tal como eu se abrigavam da chuva.

Conversavam muito felizes e isso irritou-me.

Pensei quem seria o louco que poderia estar feliz com um tempo desgraçado daqueles.

Conversavam animados como se estivessem no meio de uma tarde esplêndida.

Ouvi a voz de um homem que pedia gentilmente a alguém que partisse o bolo.

Fiquei perplexo e pensei , mas que doideira é esta. Quem será o tresloucado que quer comer bolo com este frio em plena rua.

Ouvi a voz de uma mulher responder que o partiria mais tarde , que ainda não era o momento e pensei , graças a Deus, finalmente alguém com algum juízo.

Passados longos minutos , que a mim pareceram horas,  a chuva diminuiu e passou a ser apenas chuvisco.

Sacudi o meu casaco molhado e de repente a luz voltou , mostrando uma cidade completamente encharcada.

Olhando em meu redor compreendi que as pessoas que estavam naquele vão do prédio eram uma família.

Um casal e dois filhos.

Estavam todos sentados num velho tapete já muito gasto e no meio dele estava uma caixa velha de madeira e sobre ela um humilde bolo sem qualquer decoração , excepto uma vela já com ar velho e usado, cuidadosamente colocada no meio.

Percebi que eram sem abrigo.

Eles olharam-me meio envergonhados, a mulher tentou arranjar um pouco o cabelo, e cumprimentaram-me com sorrisos tímidos.

Retribui o cumprimento assustado, lembrando-me que tinha ido ao banco e tinha dinheiro na carteira, lembrei-me do meu anel cuja pedra brilhava e chamava a atenção, tentei esconder como podia , o meu relógio rolex de ouro rosa.

Pensei que era o alvo perfeito de um assalto ou coisa que o valesse.

Mas o chefe da família depressa me tranquilizou. Com um ar feliz convidou-me a comer bolo com eles.

Disse-me com orgulho e amor na voz que era o aniversário da esposa.

Tentei recusar , mas o senhor foi tão insistente e parecia tão feliz, que fui forçado a aceitar.

A senhora acendeu a vela , cantamos os parabéns ali em plena rua e comemos o bolo.

A criança mais nova , uma menina de uns 3 anos , mal acabou de comer o bolo, deitou a cabeça no colo da mãe e adormeceu.

Esqueci o frio da rua.

Tirei o meu casaco e cobri aquele corpinho adormecido e tão indefeso.

Fiz um esforço terrível para suster as lágrimas que me ardiam nos olhos.

Desejei que a luz faltasse de novo para poder chorar , mas ela teimava em iluminar aquele quadro.

Despedi-me deles, deixei no colo da senhora uma lembrança , um presente pelo aniversário, algum dinheiro para que pudessem ao menos cobrar mantas e roupa mais confortável para as crianças.

Com um orgulho bonito estampado na face , o patriarca não queria , disse-me que não pedia esmolas , que não vivia de esmolas.

Trabalhava e com o seu parco salário garantia a comida da família.

Insisti , disse que nunca se recusa um presente e que era para as crianças.

Ao ouvir falar nos filhos , o olhar enterneceu-se.

Concordou que seria bom ter umas mantas para os meninos e acabou por aceitar.

Sai dali quase correndo , levando sobre os meus ombros o peso da minha ingratidão perante a vida.

E entendi que deveria agradecer a Deus todos os dias, o muito que me foi dado perante o tão pouco que tantos possuem.

E que não me devia amargurar com meros contratempos, quando tanta gente no mundo , sorri no meio das privações mais impensáveis.

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Escrito por Gonçalo de Assis às 17:34


1 comentário

De valquiria a 04.02.2010 às 23:16

Boa noite Gonçalo!!!Devo confessar que ri ao ler  que  ocorriam  montinhos de palavrões em seus pensamentos.Gonçalo,ninguém esta livre de passar pela situação que você passou.São experiências que marcam nossas vidas.Quando acontece isto;conosco é para nós mostrar a importância da vida.Você mostrou ter um coração generoso,em ajudar esta família.Que tanta gente  sorri no meio de tantas privações.
Beijos com carinho

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