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Bordado

Quarta-feira, 13.08.08

Quando eu era criança a minha mãe costumava passar algumas horas do dia a bordar.

Eu olhava para aquilo enquanto brincava e não entendia o porquê de ela gostar tanto de fazer isso.

Eu era muito pequeno e ela ficava lá sentada e o que eu via do bordado não me parecia que fosse bonito.

Eu sentava-me no tapete aos pés dela e o que via era um amontoado de linhas de cores diferentes, nós, coisas que não faziam sentido.

Ele ria para mim e dizia que fosse brincar para o jardim e eu ia, feliz, esquecido daquele emaranhado de linhas.

Que para mim e visto por baixo de facto não fazia qualquer nexo nem possuíam beleza.

Um dia em que nem do bordado me lembrava, a minha mãe chamou-me.

Para me mostrar.Retirou-o do bastidor onde o bordava e colocou estendido sobre o sofá.

Era lindo. Era uma paisagem de um lago com cisnes, arvores , nuvens, tudo fazia sentido e era tão belo.

Custava-me a acreditar que o emaranhado que eu sempre via fosse aquele bordado tão lindo.

A minha mãe com a sua habitual doçura disse-me:

Filho parecia confuso porque vias de baixo para cima, o avesso, por isso te parecia confuso.

Mas agora, olhando de cima, já podes ver e compreender o desenho. Nunca mais esqueci esse bordado da minha mãe.

Os anos passaram, eu cresci e hoje muitas vezes olho para o céu e tantas vezes indago:

-Que fazes pai?

E talvez ele não me responda porque , afinal, também ele está bordando a minha vida.

Mas depois apetece-me perguntar porque é tão confuso o desenho.

Porque existem tantos nós que magoam, porque as linhas estão tão emaranhadas.

Mas depois lembro-me do bordado da minha mãe, deixo que Deus borde tranquilo e espero. Sei que um dia ele me vai mostrar o resultado desse bordado que agora só vejo pelo avesso.

Por isso quando não entendo o que esta a acontecer na minha vida.

Quando tudo parece dar errado. Quando nada encaixa. Quando penso que jamais vou retomar o caminho da paz, eu acredito que estou apenas e ainda vendo o avesso da vida.

Que do outro lado Deus borda laboriosamente e que um dia destes vou ver o trabalho dele terminado e ai , tudo fará de novo sentido.

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Escrito por Gonçalo de Assis às 07:33


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