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Palavras

Quarta-feira, 18.09.13

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Escrito por Gonçalo de Assis às 21:22

Cliente improvável

Domingo, 15.09.13

Uma tarde, final de um dia de trabalho cansativo, fico com a impressão que o meu cérebro não tem capacidade para compreender mais nada , desligo o meu computador . Salvo com cuidado um trecho de um trabalho de ficção que encerra o melhor do meu dia, um trabalho a duo onde a minha alma se refugia , cansada de números e leis . Fecho os olhos , conheço bem a pressão que me aperta as têmporas , a necessidade premente de desligar daquele trabalho e sair . Sair para comer um gelado e sentir o sol morno daquela tarde , acariciar-me a pele . Fecho a pasta devagar , nessa hora todos os meus gestos são lentos , fastidiosos . Quando me preparo para sair da poltrona , ouço a voz da minha secretária e amiga de anos, amiga de sempre :- Tem uma cliente ainda , Dr.... , levanto o rosto cansado , não acredito , era a ultima coisa que esperava ou queria ouvir . Olho-a enquanto puxo e abro a agenda, leio " 15 e 30 reunião com cliente sobre contrato publicitário P... " e depois mais nada . Deve ser engano - murmuro cansado para ela - não tenho mais nada aqui . Eu sei - respondeu sorrindo - a senhora não marcou , mas parece urgente , muito urgente... Está bem - mande entrar - resignei-me . Voltei a ligar o PC , o gelado e o sol tinham que esperar . Antes de sair , Daniela murmurou com ar de provocação : - É muito bonita ... Esbocei um gesto de indiferença, estava exausto , a perspectiva de mais trabalho não me seduzia , ainda que a cliente fosse a Miss Universo . Reclinei-me na poltrona, liguei o telefone interno e pedi à Daniela que mandasse entrar a inoportuna cliente. Passados segundos ouvi pancadas discretas na porta , mandei que entrasse e olhei curioso a mulher na minha frente . Tinha longos cabelos castanhos , meio dourados e uns intensos olhos negros . Envergava um discreto vestido azul , elegante e sóbrio . A maquiagem era suave e tinha ao pescoço um igualmente discreto colar de ouro com um pingente de ametista . Calçava umas sandálias pretas de salto muito alto , talvez porque a sua estatura não fosse na verdade muito grande . Levantei-me para a receber , apertei-lhe a mão e mandei que lhe servissem um café . Sorriu e numa voz perfeitamente educada e aveludada pediu: - Para mim um Brandy se for possível . Estranhei , geralmente as senhoras não faziam tal pedido . Ainda assim pedi que trouxessem o Brandy . Reparei que pegou nervosa no copo que lhe estendiam e que bebia com pequenos goles . Iniciei a conversa , tinha que quebrar o aparente nervosismo dela.  Perguntei o que a trazia ali , fiz questão de realçar o facto de estar já no final do dia , enfim . Ela olhou para mim  com um ar divertido e examinador . Parecia um oficial a fazer inspecção às tropas . Eu vestia umas calças brancas e uma camisa de seda azul , tinha tirado a gravata que estava no bengaleiro juntamente com o meu casaco . Mantive o olhar dela , sem entender muito bem o que procurava com o olhar insistente . Principiei a sentir-me incomodado e irritado , estava exausto e sem paciência . Insisti - : Pode dizer-me por favor qual o motivo que a levou a procurar-me hoje? É que já é tarde ...

- Não tem calor , Dr?

A pergunta dela apanhou-me de surpresa . - Calor? Não , tenho o ar condicionado ligado como a senhora pode ver .

Ela levantou-se , o seu rosto estava estranho , entre o divertido e o decepcionado , talvez . De repente aproximou-se de mim , as mãos dela agarraram os botões da camisa e começou a abri-los . Afastei-a , aquilo era no mínimo absurdo .

- Que está a fazer? Aqui é o meu escritório , não admito a ninguém comportamentos deste tipo . Pelo que percebo não posso ajudá-la no seu problema , por isso , por favor queira sair.

Ela olhou-me divertida , o sorriso dançava-lhe nos lábios e na boca .

- Não tenho problema nenhum Dr. .

- Então porque veio aqui?

- Moro aqui em frente quase , e todos os dias o vejo entrar neste prédio . Sempre vem acompanhado de um homem , e nem olha quem o rodeia . Sai de tarde , presumo que para almoçar e volta duas horas depois e finalmente sai ao final da tarde . Nunc a lhe vi um sorriso , nem um gesto , e nem imagina como o observo . às vezes nem parece humano .

- Porquê?

- Não sei , interessou-me o seu ar ausente . Reparei nas pessoas bem vestidas que entram aqui , no ar das mulheres, como se fossem donas do mundo .

- E?

- E resolvi vir aqui . O meu mundo fica muito longe deste mundo que só vejo pelo vidro da janela da marquise da casa onde trabalho . Um mundo que se parece com aquele que vejo nos filmes ...

- Não é verdade , é um mundo real , aqui funciona um escritório de advogados e uma produtora publicitária .

- Eu sei , mas que motivo arranjaria eu para entrar aqui?

- Mas era tão importante?

- Era como entrar no mundo das princesas Disney, era poder ser recebida por alguém que me fascinou visto de longe , que eu não tinha como chegar perto de outra forma . E que pela reacção que demonstrou não gosta de proximidades com quem não está no seu mundo .

Ri-me , parecia uma menina, uma criança a descobrir um mundo de fantasia .

- Mas sabe , aqui tudo é real , tão real como o brandy que acabou de beber .

- As senhoras todas emplumadas que vêm aqui não bebem isso?

- Não .

Ficou pensativa . - Sabe Dr. é que fui criada no campo , o meu pai era feitor de uma casa agrícola e a senhora servia brandy ao padre nos dias em que ele ia à herdade . Sempre me pareceu ser fino e elegante beber brandy .

- Seria mais natural pedir chá ...

- Chá? Mas eu não estou doente , graças a Deus .

Ri-me . - Bem , já viu o mundo que achava tão fantástico, que achou?

- Sabe Dr. , lá da janela da marquise da minha patroa , parecia tudo mais mágico . Quando entrei aqui , pareceu-me tudo mais normal .

- Como assim?

- Entrei e passei pelas senhoras bonitas que estão lá em baixo . Uma delas dizia para a outra que quando saísse do trabalho tinha que passar pelo dentista . A sua secretaria estava ao telefone a falar com o filho , e o Sr Dr. parece estar cansado e até há pouco muito irritado . Somando tudo , são vidas normais ...

- Claro que sim . sorri - mas olhe, devo dizer que está muito elegante , tão elegante quanto as recepcionistas ou as minhas clientes .

Riu , com ar traquinas .

- É que eu tirei esta roupa e a jóia do roupeiro da minha patroa , tenho que por tudo no lugar antes que ela chegue a casa . Ela é médica , chega hoje muito tarde .

Sorri-lhe, estava cansado mas divertido e incrédulo também . Um pouco mais tarde saímos os dois , quando nos viu, a Daniela veio solicita :- Marco hora para a senhora num outro dia?

- Não - respondi - A senhora já resolveu o problema que a trouxe aqui .

Descemos juntos até à entrada do prédio , dei-lhe um beijo no rosto e fui para o carro . Nunca mais a vi , mas muitas vezes olho da janela do meu gabinete os prédios em redor , imaginando de que janela , uns olhitos curiosos e negros estarão observando quem entra e sai dali . Ou talvez já não ...

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Escrito por Gonçalo de Assis às 15:43

Sonhos

Quarta-feira, 11.09.13

Sonhos vazios, repletos de nada, de um nada tão profundo como o mundo

Sonhos cinza , como cinza é a tarde calma, que cai , salpicada de chuva

Sonhos condenados , sonhos truncados num porvir , que jamais virá

Sonhos agonizantes , sobrevivendo de instantes imortalizados na memória

Sonhos inconstantes , irreais , quem não os ousou sonhar jamais?

Sonhos inquietos , indiscretos, sonhos parados , quietos, mornos de um calor exaurido

Sonhos sofridos , perdidos, sonhos sonhados , esquecidos

Sonhos de um passado pesado , de uma distancia tão longa que cabe na palma da mão

Sonhos de um destino irreal , de momentos de irrealidade tão reais e casuais

Sonhos de uma imensidão tamanha , quanto tamanho é o silêncio de uma tarde de estio

Sonho de um dia belo , de sol suave , que chega ao fim , vazio ...

Sonhos dormentes , adormecidos , num instante cristalizado no brilho mágico de uma lágrima

Sonhos de fantasias , de  palavras evocadas que se perdem na alma, arrastadas , arrancadas

Por tempestades fugazes , por ventos , por furacões, por tornados e monções

que rasgam o pensamento

Sonhos que já partiram, que cessaram , desistiram, presos no pensamento .

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Escrito por Gonçalo de Assis às 14:42





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