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Tenho Saudade

Terça-feira, 17.11.09

Sinto saudade de café e pão com manteiga, de ver pessoas abraçadas na rua com o desejo no olhar, do bom dia doce da minha mãe, de roupa estendida no varal com o cheiro bom a sabão, sem o odor enjoativo desses produtos de agora.

Tenho saudade de acreditar nas instituições, de sentir segurança ao ver a policia na rua, de me emocionar ao cantar fardado o hino Nacional, de acreditar que todos sentíamos amor e respeito pela Pátria.

Tenho saudade de noticias boas, de ler que as crianças pobres não têm só uma refeição quente por dia, de saber que os filhos dos feirantes que dormem numa caravana têm um filho na faculdade.

Tenho saudades do tempo em que tínhamos que fazer a corte às mulheres,

Tenho saudades de olhar os governantes e rever-me neles, de sentir a justiça na forma de gerir o Pais.

Tenho saudades do tempo em que se punia quem merecia e em que a prisão era o destino dos ladrões.

Hoje vão de férias para as Caraíbas...

Tenho saudade de comer frango criado no campo, de comer comida com gosto e não com o saber a papel em que a industrialização a deixou.

Tenho saudade de beber leite da vaca, perfumado e doce como só a natureza o sabe dar.

De beber champagne só em datas felizes,

De ver os homens vestidos como homens, de amores com final feliz, de ver um filme e acabar em lágrimas.

De sorrir na rua e ver retribuído o sorriso,

Tenho saudades de ouvir dizer "obrigado" quando espero para que alguém passe, quando dou passagem, quando cedo a cadeira...

Tenho saudades da porta aberta da  casa da minha mãe que sempre acolhia quem chegava, e tenho saudade do tempo em que a frontalidade não era vazia de educação.

Hoje as pessoas são mal educadas e dizem o que querem em nome de uma frontalidade que dizem ter e que é só falta de educação,

Tenho saudades do tempo em que se sabia reconhecer os erros e pedir perdão.

Tenho saudades de ver TV sem ser asfixiado por montanhas de publicidade, saudades de assistir às noticias sem ter que ver a falta de critério e de isenção ao nível da informação.

Sinto saudades do tempo em que o abraço era mesmo um abraço e em que a desconfiança não reinava.

Tenho saudade de ver as mulheres corarem quando se falava de sexo.

Hoje em nome da dissolução de tabus , o sexo é tão banal, que o fazia banalmente antes de me apaixonar, como se não fosse uma entrega , é uma coisa quase mágica que até eu banalizei por me ser tão oferecido, sem amor e como arma de sedução apenas.

Tenho saudades acima de tudo das certezas que já tive noutros tempos, das convicções e das regras que ficaram obsoletas, de todas as minhas fantasias de menino , que hoje seria ridículo ensinar aos meus filhos.

E tenho pena deles , muita pena, porque hoje já não é permitido nascer-se criança.

 

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Escrito por Gonçalo de Assis às 19:00


1 comentário

De valquiria a 17.11.2009 às 21:48

Boa noite Gonçalo!!!Lendo seu texto lembrei da minha infância que delicia!!!Adoro lembrar da minha infância!!!Gonçalo,sentir saudade de algo significa que vivemos bons momentos,porque então sentimos este  apertão no peito?Certamente porque temos a consciência  que não possuímos  mais esta magia da infância.Realmente hoje já não e permitido nacer criança.
Beijos com carinho

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