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Viajo

Segunda-feira, 17.01.11

 

Sou viajante solitário , sem porto de partida , nem cais de chegada . Viajo por entre países em mim , por entre vagas do meu ser , por correntes da minha alma , numa lagoa frágil e calma , como frágil é por vezes o meu querer . Sou passageiro das noites sem lua , marinheiro de barcos que deslizam no seio do nada , astrónomo de estrelas vazias , frias , que gelam no seio de cada alvorada . Viajo sem passaporte , sem sul e sem norte , chego sempre sem avisar , fazendo-me presente , na total ausência de mim mesmo . Viajo por raios de sol , que já não aquecem rosas , que embelezam apenas as águas paradas , de onde é impossível escapar , viajo sem descanso , procurando eternamente o meu jeito , o meu lugar . Sou viajante sem termo , sem destino certo , sem horas de aportar , desconheço as regras , ignoro as fronteiras , penetro mundos , por mim desejados . Sou pequeno perante o mundo , grande perante a pequenez , rio perante o escárnio , fecho os olhos para a ignorância , e abro o que de mim resta ao amor , caminho por locais fechados , em busca de luz , de ar , de calor . Não sou melhor nem pior , nem bom ou mau , mentiroso ou sincero , sou aquilo que sou e o que não sou, é porque não quero . Fujo do sonho que me enganou , fujo da verdade que me feriu , fujo do amor que me magoou , fujo do medo que me cerceou , fujo da mentira que eu repeli , fujo da tristeza que me possuía , fujo da saudade que é alma morta , fujo da dor que me tomou , fujo de tudo e fujo do nada , confundo-me com o aroma das noites, com a brisa do vento que sussurra na mata , com a espuma das ondas que molha os seios de deusas que se banham ao luar , fujo da morte e fujo da vida , pássaro que arrasta a asa ferida , que teme já não saber voar , sou o escuro e sou a luz , sou o céu e o inferno , sou o dia e sou a noite , sou o passado que fui e o presente que talvez serei , mas aquilo que sou não sei . Sou no entanto aquilo que quero , porque aquilo que querem não serei , serei apenas aquilo que desejo , aquilo porque luto e quero ser , e quem diz que sou aquilo que deseja , vê em mim apenas o que almeja, porque aquilo que sei , o que sou e o que talvez serei , será apenas para quem comigo viaja , no centro da minha loucura , para quem comigo vai à aventura , quem comigo viaja sem parar , num desejo insano de ser , o que ninguém ainda sequer ousou sonhar .

  

 

 

 

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Escrito por Gonçalo de Assis às 19:31


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