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Porque Morre O Amor?

Terça-feira, 21.06.11

 

Algures , em algum lugar , todos os dias morre um amor . Não aparece nas notícias , ninguém se dá conta , mas todos os dias morre um amor . Às vezes morre de doença prolongada , depois de anos e anos de uma enfraquecedora e pobre rotina . Outras vezes morre num drama intenso , rocambolescamente , com ar de novela de terceira . Com guerrilhas e guerrinhas , com berros ou com insultos . Nem sempre o amor quando morre se rodeia de um ambiente próprio , pode morrer num quarto descaracterizado de um hotel , em frente a um PC ou no meio de uma tarde em que simplesmente o amor desiste . Muitas vezes morre no beijo que fica por dar antes de dormir , nas palavras que nunca foram ditas , na falta de entrega e de compreensão e sempre com o sabor da cinza na boca vazia de sorriso .

O amor morre em telefonemas ou sms cada vez mais curtos ou inexistentes , em conversas cada vez mais pequenas e sem assunto, de coração cada vez mais egoísta .

Morre da incapacidade de lutar por ele .

Sempre , a cada dia morre um amor , mesmo que se pense que o amor é eterno .

O amor pode morrer numa convulsão explosiva , ou simplesmente exalar um suspiro frágil , e fica na alma a pior dor de todas , a dor de um grande fracasso .

Porque por mais que se finja que não se lamenta , a morte de um amor tem por força de nos mostrar a nossa incapacidade e de nos ensinar algo também . É que ninguém pode pressupor amores imortais , porque sempre podem morrer .

E o pior é que o amor nunca morre de modo natural , sempre é assassinado .

O amor assassinado sempre deixa vestígios , nem que seja na caixa triste cheia de presentes devolvidos , numa lista de frases ditas sem sentido , no vazio frio do depois .

E nenhum de nós está livre de cometer este crime .

E quando o cometemos , agimos como um qualquer vulgar criminoso , escondemo-nos por trás das nossas certezas idiotas , e tentamos abafar a culpa , pensando que a culpa foi do outro e pior que isso procuramos novas vítimas , seja no cinema , em frente a um computador , na rua , no trabalho ...

E criam-se dependências para esconder o crime , trabalhar como alucinados , viajar sem rumo , ou mergulhar no álcool , onde a culpa aparece como um fantasma e a confessamos a quem tem paciência de ouvir .

E há os que pensam ter adquirido experiência capaz de aconselhar os seus semelhantes, espalhando os seus fracassos pelos olhos dos outros .

Existem também os amores que imploram eutanásia , que sobrevivem sem alegria e sem dignidade .

 

Existem também amores fantasma , aqueles que já morreram há muito , mas em que um dos membros do casal se recusa a admitir .

Amores inertes que teimam em resistir apesar da dor , de camas separadas , de sexo ruim e frio , isso quando ainda há sexo , esses são amores que nunca terminam de agonizar e que se arrastam quais almas penadas pela vida .

Existem os amores que por falta de coragem se tornam platónicos , inertes e moribundos .

Que se eternizam na dúvida do que teriam sido , no eterno Se...

 Mas existe uma outra casta de amores , amores esses personificados por pessoas fortes , determinadas , de coragem e são esses os amores vencedores .

O amor daqueles , que apesar das dificuldades comuns a todos , dos filhos ou da falta deles , da paixão que com o tempo fica menor , do jantar tranquilo em casa , da nudez já sem mistério , das brigas normais , e que ainda assim renascem das cinzas permanentemente e renovam esse sentimento diariamente.

Mas esses amores são escassos e requerem sabedoria , são tão raros que no tempo que corre parecem meras visões de poetas .

Esses amores são reais , mas não são casuais , esses amores são feitos de luta , de trabalho e de criteriosa administração .

O amor vencedor não o é por magia , ou por sorte , é por empenho .

É o amor pleno , maduro , que cresce em solo fértil , vigiado por dois seres adultos e constantes que dariam a vida um pelo outro , apesar dos pesares .

E isso é para poucos .

 

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Escrito por Gonçalo de Assis às 15:19


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