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A Fuga do Café

Quinta-feira, 10.01.13

Às  vezes acontecem-me coisas que ficam na memória e me trazem um certo sorriso aos olhos e à alma ...

Uma tarde comum , como todas as minhas tardes, saio do meu carro mesmo em frente ao edifício onde está o meu escritório . Uma tarde chata , cinza, pesada , em que as árvores despidas agitam os ramos nus sob uma ligeira brisa fria . Visto calças azuis , camisa castanha, uso no pescoço um cachecol de seda bege e sobre a camisa um casaco preto . Entro no edifício apressado , a aragem fria não convida a ficar na rua , na recepção a miúda que todos os dias está impecavelmente vestida , penteada e maquiada , cumprimenta-me e sorri como sempre . O cheiro do seu perfume é doce e intenso , aspiro-o deliciado , mas quase não a vejo . Ela está sempre ali , para mim é como uma certeza absoluta , ela está ali. Entro no elevador já perfumado por quem subiu antes de mim, olho para o espelho gigante que cobre uma parede do elevador, vejo divertido que o meu cabelo voltou a estar todo espetado . Esse sempre foi o terror da minha mãe , ela queria que o meu cabelo ficasse bem penteado, mas ele tem vontade própria e deixa-me com um ar rebelde que me diverte . O elevador pára, saio para o corredor bem aquecido , os meus passos não fazem ruído sobre a espessa carpete que se estende pelo chão . Das portas fechadas dos gabinetes chega-me o som de teclados , de toques de telefone , de conversas e de risos . Caminho até ao meu gabinete , abro a porta e uma onda de ar quente acolhe-me . Já me tinham ligado o ar condicionado, a minha música preferida tocava baixinho , sobre a minha mesa, as pastas alinhavam-se impecavelmente arrumadas . Olho em volta e apesar do calor ambiente , sinto frio . O gabinete é enorme , o chão de mármore branca faz lembrar a gélida neve . Uma das paredes está coberta por um espelho que a tapa completamente , olho-o e ele reflecte um homem despenteado , que parece entediado e cansado . Acendo o pesado lustre que fica ao centro do tecto, a luz intensa que se espalha parece aquecer o ambiente . Abro as pesadas cortinas de veludo que tapam uma imensa janela , mas não há sol algum para iluminar essa tarde . Torno a cerrar a cortina , prefiro o lustre que imita a luz do sol . Nem abro a varanda para ver as minhas plantas , sinto frio , quero ficar quieto . Uma ligeira pancada na porta tira-me desse marasmo , mando que entre .

O Paulo entra efusivamente na sala, dá-me o abraço apertado de todos os dias .

-Não te ouvi chegar ...

Rio-me .

Convido-o para um café quentinho , que aceita de imediato. Peço pelo telefone dois cafés com natas e canela, enquanto esperamos falamos de banalidades .

Conhecemo-nos tão bem , que nem precisamos falar para nos entendermos .

O café chega pela mão de uma funcionária extremamente bonita. Capto o olhar do Paulo sobre ela , vejo como ele olha atentamente cada gesto , cada traço e sorrio , ele capta o meu sorriso e cora , meio divertido , meio atrapalhado . Ela sai e bebemos o café tranquilamente , enquanto olhamos no jornal as cotações do dia .

Ele sai para o seu gabinete e torno a ficar só . Sinceramente não me apetece trabalhar , mas há coisas que são urgentes . Ligo o PC e aguardo que a net ligue também . Muito rapidamente tudo está operacional . Abro pastas necessárias ao trabalho e quase por impulso ligo o MSN . Sei que me vai distrair , mas não tento contrariar o impulso . Vou trabalhando e falando, sempre consegui essa proeza . Há conversas que de repente se tornam intimistas , que mexem com sentimentos . Trabalhar assim fica difícil , peço mais um café. Quando ele chega , tomo-o mesmo em frente ao PC . O meu olhar está absorto no monitor , sem querer o meu braço toca numa coluna de som e o café cai-me todo em cima . A primeira reacção é de irritação . O cachecol , a camisa e o casaco ficam cheios de café .Como é que uma chaveninha tão pequena pode conter café suficiente para sujar tanto . Sinto a camisa molhada no peito, ainda quente , mas sei que vai arrefecer . Ligo para a recepção e peço o motorista . Avisam-me que não está , que está na rua a trabalho . Deixo recado para que suba mal chegue . A camisa incomoda-me assim molhada , fico mais um pouco a conversar no MSN , o trabalho fica de lado . A conversa fica interessante , os meus sentidos prendem-se ali . Deixo de sentir o frio da camisa molhada , o meu pensamento voa para outras paragens . O tempo passa e nem me dou conta . De repente batem na porta , o motorista entra apressado e exclama :- Como o Senhor está!! Já está assim há muito tempo? Vamos já para casa para o senhor mudar de roupa .

O meu pensamento vagueia tão longe que mal me apercebo daquilo que é dito .

Ele coloca-me a gabardine sobre os ombros e gentilmente toca-me para que me levante e saia .

Digito rapidamente no PC : - Tenho que ir .

Do outro lado vem a resposta. - É tão cedo , porque foges?

Vejo que o motorista por trás de mim , lê aquilo que apareceu escrito e disfarça atrapalhado.

Desligo o PC e rio para mim mesmo . Parece de facto uma fuga , mas na verdade fujo da roupa fria e manchada de café .

Desço no elevador e olho no espelho a minha figura lamentável , com a roupa manchada .

Ainda no elevador visto a gabardine para que não se veja o estrago na roupa.

Ao sair a recepcionista olha-me e comenta: - Vai já sair Dr.? Está tudo bem ?

Sorrio-lhe e digo que sim . Saio e entro no carro que já me espera de porta aberta .

Coloco um CD de música clássica e fecho os olhos . O motorista respeita o meu silêncio e fica calado . Acho que adormeci e acordei com o ruído dos portões da quinta que se abrem . O carro entra e fecham-se de imediato . Saio do carro e sou acolhido em festa pelos meus cães. Entro no salão pelo jardim , a casa está calma , tranquila , a TV está ligada sem som , as minhas revistas e jornais estão arrumadas ao lado do sofá . Ninguém está em casa , a empregada deve ter ido às compras e ao longe ouço a voz familiar do marido dela a falar com os cães .

Vou para o banho e deixo que a água quente me aqueça e lave o cheiro a café .

Na minha cabeça ecoa ainda a frase : - Porque foges???

É mais uma tarde na minha vida...

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Escrito por Gonçalo de Assis às 11:19


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