Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Silêncio de Prata

Quinta-feira, 26.12.13
 

 

É de prata o silêncio que me envolve , quando a muralha da não vontade se ergue e me defende daquilo que já não sei dizer . É madrugada e o frio agita o meu cabelo e abraço a prata que a noite lança sobre mim , num momento de perfeita equilíbrio entre eu e o negro que me envolve . Cai sobre os meus ombros a chuva fria que me lava a alma e deixa no meu coração resquícios da prata de que é feito o abraço da noite . É de prata a máscara que me protege o rosto , qual elmo que me defende daquilo que não quero ou contra o qual já não sei lutar . É de prata a muralha que me aprisiona num silêncio que me isola das palavras que ninguém entende , talvez porque elas há muito morreram e estão envoltas numa mortalha de prata . É de prata a madrugada que lança sobre mim as primeiras luzes do amanhecer , trazendo de volta a vida que pulsa lentamente nas minhas artérias , preparando-me para mais um dia de silêncios de prata e de sorrisos vazios , tão cheios de ... prata . O dia corre no seu ritmo agitado e é de prata a minha indiferença perante o tempo que se vai , que se escoa pelos meus dedos frios , que já não lutam para segurar as rédeas de tempos que apenas se foram e jazem enterrados sob a prata da memória . Cai a tarde , cheia de luzes cintilantes que se tornam prata perante os meus olhos cansados e a minha boca onde só surgem expressões que ninguém parece entender e cuja vontade de as fazer viver no meio de explicações coerentes há muito já se perdeu , não sei se por incapacidade minha ou mera falta de interesse dos que não me ouviram . A tarde aprisiona-me num cansaço feito de correntes de prata , de algemas que prendem os meus gestos , e a minha força , o meu animo , perdem-se na imensidão de prata gélida que me cerceia . O sorriso em que se transformou a minha máscara de prata , permanece firme , isento de sentimentos ou dores, fica ali , qual sentinela que afasta olhares mais atentos ou mais curiosos . E a noite chega de novo , acolhendo-me no seu seio de prata, acolhendo em si a minha fragilidade, a minha falta de vontade de continuar por caminhos tão cheios de prata , a noite embala-me, eleva-me a mundos que só eu conheço, onde a prata se dilui no calor de mil sóis e eu sou enfim livre . Mas a noite é efémera e quando partir , o meu mundo encantado feito de prata brilhante vai ressurgir ... Por isso não me acordem ... Deixem-me dormir... Porque logo a manhã virá , mais uma vez , envolta nos seus longos e infindos cabelos de prata .

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escrito por Gonçalo de Assis às 10:49


Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  



comentários recentes



subscrever feeds