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Madrugada

Quarta-feira, 12.02.14


Estou só e na madrugada deambulo pelos recantos de mim mesmo . Procuro aquilo que perdi de mim num tempo tão distante que já nem sei se existiu ou se fui eu que inventei , possuído de um delírio qualquer . Perco-me nas sombras que inundam a minha casa , o meu espaço , a minha alma e confundo-me no meio da escuridão que cobre tudo . Sento-me quieto , imaginando quem antes de mim passou aqui , quem tocou os livros que hoje toco , quem se perdeu na contemplação do tecto , tal como eu . Quem vagueou por estes corredores , quem antes de mim aspirou o ar fresco da madrugada , quem sonhou , quem ousou e partiu . Sei que um dia partirei também , e depois de mim , muito depois de mim , outros passos farão eco no vazio amplo destes corredores , outras mãos tirarão curiosas das estantes os livros imortais e cobertos de pó ,outros olhos procurarão detalhes para apreciar e se evadir . Olho tudo em meu redor e perco-me nos pensamentos que me assaltam,imagino quem antes de mim sonhou de olhos abertos e viu nascer a madrugada devagarinho , vendo a suave luz matinal dissipando as sombras , como fortes guerreiros de armas em punho ,vencendo tenebrosas hostes inimigas . Ouço o eco dos meus passos e sinto que sou apenas mais um grão de poeira , que um dia ninguém mais se recordará de mim , que apenas os espaços e objectos possuem essa imortalidade muda que impressiona . Ansioso abro uma janela , preciso sentir o frio da madrugada acariciar-me o rosto, e os pensamentos diluem-se . O som dos meus passos perde aquela aura quase imaterial e a pouco e pouco todos os lugares perdem a penumbra e se enchem de luz . Apesar disso , nas estantes de tempos imemoriais , os livros descansam num sono que não ouso interromper , escondendo o seu imenso saber sob capas repletas da poeira fina acumulada pelas frinchas ao longo dos anos . Imagino quantas pessoas os abriram , os lerem , partilharam os seus segredos , quantos olhos, sedentos de saber , devoraram as páginas daqueles livros agora inertes . Gostava de encerrar em mim todo o saber acumulado aqui , gostava de conhecer todos os sonhos , todas as alegrias de quem me antecedeu . Mas o dia vem devagar , devolvendo o real tamanho ao que me rodeia e mostrando que apesar da minha vontade de me elevar para lá de mim , eu sou apenas eu...

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Escrito por Gonçalo de Assis às 14:38


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