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Madrugada

Quarta-feira, 18.03.15

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Cai a madrugada sobre uma noite de palavras , que ecoam dentro de mim. Vem um cansaço que traz o perfume da noite e me envolve, deixando mais forte a sensação daquilo que se foi. Doe-me o peito de uma luta sem tréguas onde me dou e me vejo ressaltar contra paredes de vidro que não ousam ceder. Sinto-me de repente , como um pedaço de gelo , que se funde com o calor de uma dor tão conhecida e escorre entre os dedos que não a sabem reter. É madrugada e o silêncio que cai , traz consigo a dor calada da quase inutilidade do que foi dito. Apetece-me gritar , rasgar o silêncio onde me remeto, apetece-me rasgar a noite e gritar até que a minha voz se misture ao vento que geme lá fora. Crepita na lareira mais uma chama , que se torce e retorce no seu bailado efémero , inquieto e acompanho com o olhar perdido aquela beleza que não consigo reter. Olho as minhas mãos cheias de um vazio que dói de uma forma tão intensa que me apetece dizer aquilo que não tenho mais forças para repetir. Olho pela janela as copas das árvores que se vergam, e vejo a chuva que cai , quais lágrimas de uma noite habituada a sofrer. Abro a porta , não sinto frio , e entrego-me ao vento que arrefece o meu rosto , que arde como a chama da minha lareira. Estou cansado, não consigo pensar, nem há nada mais que tenha que pensar. Fico ali quieto, deixando que a agua lave o meu rosto e tire de mim a sordidez de tudo o que ficou ali , flutuando entre o limbo e a realidade. Sinto-me quebrado, exausto, e só , só como a noite que cai sobre o jardim vestido de luto. Volto para dentro, procurando em mim , aquilo que ainda não foi dito, o pouco que ainda não foi dado. Olho-me no espelho e ele devolve a imagem de alguém cansado, de cabelo colado no rosto e de olhar vazio. Olho bem fundo , dentro dos olhos que me olham no espelho e sei que ali nada mais há. Olhar sem alma, deixo escapar no meio de uma gargalhada que liberta a minha loucura. Olho de novo e vejo um rosto parado no tempo, sob um jugo que não se retrai, como cavaleiro duelando com o vento , sem nada conseguir mais que um mero lampejo de vitória. Coloco lenha na lareira , recriando um bailado único , que se entga em mil cores. Estendo as mãos para o calor que se exala e me aquece os dedos. É madrugada, mais uma que se perde no nada que povoa a minha mente. Cansaço , como o cansaço me possui, me deixa ali, quieto , tentando encontrar a frase, a palavra que defina e não deixe morrer. Olho as chamas que vão diminuindo , como eu fatigadas por uma magia que não se consegue deter, por uma realidade que nos ultrapassa, que nos foge das mãos doloridas. Há palavras que ecoam em mim , palavras que queria mudar, palavras que queria combater, palavras , tantas palavras. Só as minhas palavras não vingam , não se fazem entender , voltam no momento exacto em que partem , sem encontrarem rumo certo. Lá fora a chuva bate nos vidros, embala-me , acolhe-me e eu olho a noite que não despe o seu manto de viúva. O meu cabelo escorre pela minha face cansada , cansada como a madrugada que debato em mim . Sinto que me dou em mil momentos e que em todos eles me debato com uma reserva inultrapassável, inatingível, impossível de invadir. Os meus olhos cerram-se e a noite faz-se em mim . Sinto o deslizar das lágrimas quentes que se misturam às gotas frias da chuva que ainda me salpicam o rosto. Deixo que saia a dor, o cansaço , o sentido de que nada do que dei foi recebido. Vejo o bailado já muito ténue das chamas, num ocaso que vem dar brilho ao meu olhar vazio. Não sei quanto tempo passou , mas lá fora desponta a madrugada , a mesma que transformará a noite viúva em dia alegre e feliz. Vejo a sombras das arvores a despontar pelo meio das sombras e sinto frio. O lume perdeu o seu fulgor e o calor esvaiu-se , como alma que se cansa de amar. O frio percorre-me, e sinto que a manhã que se aproxima me chama para a vida , para o dia que está à espera de ser escrito. De novo virão palavras e palavras que de novo irão esbarrar na surdez de quem já não  sabe ouvir. Tenho frio , murmuro para mim mesmo , ouvindo o som da minha voz quebrar o silêncio que ainda me rodeia. É manhã , o dia desponta, clareia, ergue-se imponente. Rejeito-o... Não quero mais guerras de palavras, não quero mais duelos, não quero que a minha verdade seja imposta pelo cansaço , mas aceite de coração aberto. Levanto-me do sofá onde sentado não dei pelas horas que se escoaram, cheias do nada que tenho nas mãos. Cerro o cortinado pesado e opaco e o dia fica escondido lá fora. Sei que daqui a pouco estará aqui , invadindo tudo , entrando por todas as frinchas e eu retomarei o palco, o sorriso e as palavras.Ah as palavras, recuso-as, não as quero, sei que nada do que digam será ouvido , compreendido ou retribuído. Seca-se a fonte de palavras, perante as palavras que se esperam e nunca vêm. Dispo-me da noite, deito-me por fim na minha cama, adiando a dor , a revolta, a ira . Que o dia se vá, que recue, por mais um pouco....

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Escrito por Gonçalo de Assis às 06:30


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